14 de mai de 2013







Quase 15 mil pessoas vivem em “situação de rua” em São Paulo, de acordo com o Censo de 2012. Metade mora em centros de acolhida; metade dorme em praças, embaixo de viadutos, colando pôsteres nos muros que lhes servem de paredes. O número é indesejável e a solução, difícil; para além desse consenso, o enorme contingente de homens, mulheres e crianças permanece, no que toca à relação com a sociedade, sem interlocução e, em última instância, invisível. Em Dorme Sujo, o inquieto arquiteto Duílio Ferronato põe-se (e nos põe) a ouvir gente que mora na rua. Alto, claro e, às vezes, delirantemente, Arquimedes (34 anos, Avenida Rudge), Paulo (50 anos, Praça Santo Antônio), Rosângela (25 anos, Duque de Caxias com Amaral Gurgel) e outros personagens compartilham histórias que, se ilustram mazelas mapeadas (família disfuncional, abandono paterno, êxodo rural, doença mental, alcoolismo), também revelam personalidades e trajetórias únicas. Renata quer fazer laqueadura aos 23 anos, porque já tem três filhos. “Não dá para segurar os caras, eles vêm com tudo”. Sabá fumou maconha nos anos 70 e virou hippie. “Desapareceram todas as ideias da minha cabeça.” E Alex lê jornal, quando acha: “As notícias não tem importância se são de outro dia.” Esforço de reportagem sensível, Dorme Sujo mostra que, abaixo da linha da miséria, a vida continua humana.

Teté Martinho